' Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara ' José Saramago

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

dedicado, beirando o começo de 2009

Ele já estava sentado, quase que beirando o sofá.
Não parecia mais o mesmo. Estava distante, calado.
Trasparecia o querer incansável do fugir.
  E eu nem ao menos encostei na tão fria carne.
Fria não pelo caráter.  Se for por esse, estaria ele quente.
Não mais naquela situação, já não poderia.
Estava frio pelo tempo acizentado que cobria o céu de são paulo.
Estava frio.
Resolvi servir. O silêncio me tornava surda.
- Um café hoje a noite ?
  Ou um whisky ? Depende da sua vontade.
  A sala fez-se em silêncio novamente.
Não existia mais assuntos sobre profissões ou malícias.
  A única se encontrava na minha cabeça, que se arrependeu em
instantes depois do oferecimento.
Malícia esdruxula. Silêncio constrangedor.
- Vontade da bebida no caso.
- Prefiro, fanta uva - saltou de sua garganta sem rodeios.
Me desfiz em pedaços, mas sabia que não poderia.
Estava certo e eu, escassa de certezas.
Queria mais era ficar calada. Falei demais.
Mas agora o que parece é que ele resolveu abrir sua bela boca.
Não poderia mais fujir, já que eu mesma comecei.
- Nada alcoolico ?
Sem perceber sorri tristemente, mas não tão forçado.
Sorri por sorrir. A malícia comia-me. E eu lutava contra pensamentos.
- Café é tão mais quente. mas já que você quer a fanta uva.
Virei-me e servi. Ofereci o que mais amava. E ele o rejeitou.
Não falo só pela bebida. Na verdade não falo mais de nada.
- Pra você um café - disse ele sorrindo.
Sorriu, e sorriu feliz.
Ele bebeu. Levantou-se e saiu.
Largou-me com todos os desejos.
  E eu apenas fiquei, fria. Seca.
Me calei,por entre os goles do café.
Na verdade era um cappuccino. Rejeitado estando, eu o tomo.
Nunca quis seduzí-lo. Na verdade ele que sempre ofereceu sua sedução a mim.
  E se não ofereceu, senti como se tal fosse feita.
Fato é que na verdade nunca nem ao menos o toquei.
  Éum professor de historia, dizia. E eu escritora.
Não seria de todo mal,se um dia talvez casassemos.
Complicado seria. Se agora ele estava tão perto, mas tão distante.
Nunca o senti. Talvez precise do toque, ou de alguns gestos.
Ou de mais alguns cumprimentos, mesmo que rapidos, como da única vez.
  É um professor de história.
  E eu não sou sua aluna, embora agora quem dera eu fosse.
Tinha várias perguntas impertinentes a aula.
Mas eram ao menos perguntas. Desculpas para um assunto.
Nunca conversei com lábios tão próximos.
Evito, já para não cometer o pecado.
  E ele por si só já foi um pecado.
E continua sendo.
  É a tentação que eu descobri por uns meses, e talvez deixei-o lá.
Ou entao mordi. Mordi com todos os dentes feito maça.
Despertou em mim vários dos 7.
  A luxúria. A gula. E a preguiça.
Desperta-me a ira agora.
Pelo relacionamento em que se encontra.
Tenho medo de não conseguir me controlar, se por inveja me encontrar tão perto
de sua boca avermelhada.
Rejeitei-o do mesmo jeito que agora me rejeita.
Me tenta do mesmo jeito que um pirulito a uma criança.
Por medo não sigo em frente.
Possui todos os pecados assim como eu.
Juntos são 14. Forma-se o 15, se assim existisse.
Medo deveria ser pecado.
  É um professor de historia. E resolveu dar aula.
Veio me ensinar sobre ilusionismo. 
Ilusionismo rimava um bocado com ilusão. Tola perguntei.
- Seria ilusão se eu começasse a gostar da sua carne, de seu espirito, ou até de suas palavras ?
Perguntei em silêncio na minha cabeça.
Perguntei por entre pedaços de papel.
  É um professor de história. Está pronto para perguntas.
Eu sou apenas uma escritora. Tenho medo das respostas.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

cinquenta e dois, pra não mais.


Queria morrer.
Morrer por morrer, de morte morrida.
Morrer de raiva, e de mãos atadas.
Ah como o odiava.
Odiava quando a chamava de linda.
Não lembrava da voz dele, por isso talvez toda a noite deparava-se com o telefone na mão, discando seu número.
Nunca de fato ligou.
Talvez uma, ou duas vezes, por puro impulso.
É engraçado como a mente brinca com a gente.
Ligava e sem querer dizia o que não mais poderia.
Afinal de contas, talvez ele não a quisesse mais.
Pelo menos não daquele jeito.
Não sabia.
Debruçada na janela, olhando todo o mar azul.
Soluçava linda: a paisagem, a brisa.
Ela não. Nunca foi, e se foi não havia descoberto ainda.
Não queria.
De todas as palavras, a que menos gostava de escutar, com toda a certeza era linda.
A incomodava de tal maneira que parava o mundo e todos os demais sons para dizer que não.
Batia o pé, virava a cara. Birrenta.
Mas da boca dele sempre saia o linda que percorria teu corpo inteiro, e a dentro ia num palpitar querer de crença.
Era o linda mais atormentador de todos os outros.
Porque persistia, e não desistente, pronunciava inúmeras vezes ao longo do dia.
Não contente, e não o bastante seguia o linda com frases de poema e prosa, feitos por ele mesmo em segundos.
Teimava em dizer que não tinha o dom, e que este era somente meu.
Mas escrevia frases soltas em questão de piscar, de flor nascendo, vento a balançar cabelos.
"És linda, e digo mais."
Ah sim, sempre dizia. Muitas vezes mais, e bem mais.
Dizia ainda que eu não mudaria jamais.
Seria eu, linda até que seu corpo estivesse a metros da terra, lentamente se desfazendo como o nada.
Imaginava talvez o céu mudando de cor, e eu ali. Linda.
Queria até que estrelas mergulhassem no mar.
Pensei que ele, por todos os devaneios ditos, fosse louco.
Olhei então pela janela, e foi ali que vi, ainda debruçada, estrelas entregando-se ao mar, lá no fim do horizonte.
Em mais uma noite em que distante me chamou de linda, sem que eu pudesse acreditar.